sábado, 29 de maio de 2010

Porque tudo é memória...




Por vezes perdemo-nos na vereda esbatida da memória.

seguimos caminhos de arbustos e ervas

que o tempo plantou no esquecimento.

é certo que tudo é memória,

que tudo é sustentado no livro que todos escrevemos.

fazemo-lo com imagens sem ordem cronológica,

fotografias de viagens muito antigas que fazem o futuro,

porque todos os dias são o espelho do dia anterior.


de súbito

apeteceu-me revisitar estas páginas quase esquecidas,

perdidas intencionalmente, ali,

no espaço apertado da prateleira mais dorida.


éramos ainda muito novos e não sabíamos o que era a terceira noite.

este parar na encruzilhada, este olhar para a frente,

olhar para trás,

e nada ver que justifique os primeiros vinte anos.


éramos pinceladas de revolta,

inconformismo e utopia nas vozes de poetas exilados.

haviam canções mágicas,

rituais à volta de uma viola,

cantores evocados em surdina,

outros gritados até à rouquidão...


contigo enrolei o primeiro cigarro.

tinhas o cabelo muito loiro castigado pelo sol,

uma fita na cabeça, uma túnica e sandálias,

a pele escurecida pela luz forte de Melides e Odeceixe.

falavas de Katmandu e de um evasivo amor universal,

confuso e ingénuo, ao som de uma cítara.


nesse tempo

julgávamos que haviam paraísos intocáveis,

acampávamos na praia,

andávamos nus...

tomávamos banho como se todos dias fossem dia de baptismo...


seriam outros os caminhos se

não começasses desesperadamente a perfurar a pele.

desesperadamente à procura da vertigem.

se o meu receio não fosse mais forte que a voz da sereia

se não fosse esta obsessão pela lucidez.

este pavor a tudo o que não se pode controlar.


verdade que procuravas o absoluto,

o TODO MAIOR imerso em todos nós,

o Deus que ainda procuro nas pedras da calçada

na rebentação das praias

na teia da palma da mão.


houve um filho que não nasceu.

ainda tenho a marca que me vai seguir até ao pó.

nunca houve o seu regresso,

ficou para sempre perdido nas malhas da nossa culpa,

uma culpa silenciosa,

crescente nas visões nocturnas de sonhos justiceiros.


sentava-me a teu lado e via-te cada vez mais longe.

o mar deixou de nos unir.

um mar começou ao poucos a separar-nos.

já não havia Atlântico nem as dunas nos dedos.

tinha medo.

medo desse deserto, medo desse palmeiral,

medo de acordar soterrado sob sal branco das viagens.

um medo húmido,

como aquele que ainda sinto quando acordo em sobressalto,

e a tua presença é eminente.

pretendo esticar a mão e tocar-te.

paralisado fico com receio de te encontrar.

com receio que ali estejas, olhos tristes,

magoados no abandono da partida - por eu ser cobarde.

a cobardia latente do animal que precisa sobreviver.

que oculta a cobardia por trás da máscara pacifista.

que nega a luta, o confronto,

que não mata mas deixa morrer em nome da paz não alcançável.


todos matamos quando deixamos morrer.

não é mais assassino o que varre a estrada com foice motorizada,

aquele que em nome de uma fé

explode em sacrifício levando em si almas que um dia serão santas.

nós, os inertes, os senhores do conforto,

leitores da Bíblia e do Corão,

matamos em cada gesto parado,

em cada telemóvel comprado,

em cada carro último modelo.

matamos crianças em esqueleto,

mendigos tiritantes,

prostitutas nas estradas.


sentados nos sofás dissertamos sobre o sentido da existência,

bebemos vinho,

falamos de poesia,

de políticos corruptos,

de sexualidade e de tendências musicais.

estamos mortos, minha querida. estamos mortos -


mais mortos do que tu, que recusaste a condição de vegetal,

que vives como pássaro de luz na minha incómoda memória.


tudo é memória. tudo é memória...


vivemos numa extraordinária desordem,

deixamo-nos infiltrar por informações em todos os poros.

abrimo-nos em êxtase,

deixamo-nos penetrar e deixamo-nos gerir como máquinas de dados.

já não há cultura.

somos inteligentes - julgamos - mais espertos,

somos mosaicos multicor, mas não temos sabedoria.

a sabedoria do iletrado que respira em sintonia com o sol,

que bebe água da fonte,

que colhe o mel da silva

e faz as palavras com o som da natureza.


às vezes sinto um pouco desse homem inicial.

é quando tento agarrar as imagens em rodopio,

tomar-lhe a forma,

manipula-las e dar-lhes outra forma -

escapam-me entre os dedos:

são luz.

incapaz de as parar tento descrevê-las

mas nada sei de ortografia.

as regras poéticas são-me inacessíveis e

os contornos dos versos muito vagos.


sei que se podem segurar entre as mãos,

com tenacidade apertar os dedos e com raiva

cuspi-las na cara dos livros.

outras vezes acariciá-las,

passar-lhe os dedos no veludo da pele,

de revés eriçar-lhe o pêlo,

ou mastigá-las com vagar entre os dentes.


já vi disso num filme,

já vi gente que luta com elas,

corpo a corpo, taco a taco,

o suor inunda as narinas,

torna a pele escorregadia e trás os músculos à superfície.

o pó faz pequenas nuvens rasteiras,

acumula-se nos poros húmidos,

escorre em chocolate que apetece lamber.


desconheço as regras dessa luta, minha querida,

e nada sei de estratégia.

nasci no campo,



onde as palavras são livres,

crescem como as árvores sem poda,

só vergadas pelos ventos dominantes.

não têm uma forma rígida

aglomeram-se à volta e confundem-se com as coisas,

crescem de boca em boca,

puras e espontâneas como quem quisemos ser.


sei que se estivesses aqui definharias como uma rosa num campo de opunciáceas.

as pétalas cairiam em desalinho,

seriam pisadas,

esmagadas,

de onde se extraiam óleos vendidos em perfumaria.

é o que fazemos a quase todas as flores perfumadas,

às outras, as mais exóticas, secamo-las com processos sofisticados,

cobrimo-las com o verniz mais brilhante

e vendemos a sua imagem multiplicada ao infinito.

depois... bem, depois - apesar de falar-mos de reciclagem -

abandonamo-las no contentor do esquecimento.


não me perguntes porque ainda respiro.

há respostas que nunca se materializam.

talvez porque, apesar da recusa a este mundo,

da recusa a este país,

a este povo,

ainda encontro no homem um palpitar indefinido,

uma ténue vibração poética, prenúncio da sua alma imortal.


só a poesia conta.


nascemos sob um mar de velas.

são múltiplos pontos luminosos, que ofuscam e nos aquecem.

crescemos,

e as chamas apagam-se naturalmente, até sobrarem alguns cotos.

às vezes sopramos as que desfalecem,

com esperança no reviver da sua luz,

e elas morrem para sempre.

é quando percebemos que estamos destinados à escuridão.

pouco a pouco as trevas envolvem-nos

abraçam-nos até ao último frio.


ainda me resta uma ou outra luzinha trémula,

antes de me encontrar só perante de mim,

pronto para me abandonar nos caminhos da solidão maior.

talvez por isso,

ainda este rio que corre lânguido nas margens poluídas.

este escrever e rescrever o mesmo verso até ao infinito,

até mais nada haver que um indelével sinal desfeito.


sinto-me confortado por te saber do outro lado,

por te saber a gaivota à solta do velho livro em tempos lido,

livre dos desconfortos da carne

e das violentas palavras do homem.


volta no teu voo planado e beija-me os lábios no sono.

faz renascer a imortalidade do amor,

canta-me canções simples como um riacho,

como as noites à volta de uma vela e um poema.


porque tudo é poesia... tudo é poesia...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Metamorfose


A noite ausentou-se de novo por osmose
na densidade das paredes brancas

o sono volátil
etéreo de vidro
transparente e frágil
quebrou-se no tilintar de um poema

vieram deuses duendes e fadas
vieram faunos ninfas e pégasos
amores antigos e sonhos de manhã

Gregor Samsa acordou preso
na confusão de patas atadas
em nós de solidão cósmica
de rebeldia existencial
e de inconformismo de ser

eternamente verme

                                    in: "Asas de Fogo"

quarta-feira, 26 de maio de 2010

um dia todos fomos crianças


um dia todos fomos crianças com
olhos esbugalhados de espanto
num mundo de maravilha e sonhos – tantos

depois
descobrimos o poema e a história do poema
a parede e o murro e as grades arranhadas com raiva
e outras – tantas  -
palavras com erres que inflamam a garganta
e corroem
a epiderme e a derme com ácido
das profundezas viscerais

com total indignação

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Marcas de morte.


O prazer de tirar a vida, de ver o sangue escorrer, talvez o sentimento de ser Deus, quando não se mata pela sobrevivência.

Muros





não existem muros eternos

nem amores para sempre


transitamos à deriva no tempo

perdidos em sulcos lavrados na pele

- ténue cortina de seda -

que não protege da velhice


protegemos com muros de pedra

todos os nossos ideais

falamos convictos da verdade definitiva

definitivamente

condenada a um finito

domingo, 23 de maio de 2010

O momento certo...


O momento certo, parece-me, é mais uma questão de paciência, sorte e agilidade do que arte.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Dog como esquecer a tua recordação?



O amor pelos animais é ignorado, suponho, pela maioria da humanidade, mas tantas e tantas vezes, ultrapassa ou substitui, o amor pelo ser humano. Acredito que quando isso acontece não é mais que um indício de extrema solidão.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Amor tardio


luminosa a Primavera invade o meu quarto
fala-me de pétalas carmim do teu poema
a memória atravessada pelo rio da juventude

perdida

e reencontrada
no tempo do amor tardio

segunda-feira, 17 de maio de 2010


Um dia todas as casas vão ter a fachada limpa,
Máquinas de lavar, de secar, vibradores...
E gente sem alma!

sábado, 15 de maio de 2010

As Mulheres



as mulheres abrem os braços… e o corpo para dar mais vida à vida
protegem-na
acarinham-na
alimentam com o corpo o corpo da nova vida
e ela cresce num canto de ave migratória
e parte
deixando sem pecado
a vida... que lhe deu a vida

De negro vestidos, num céu de cinza, à espera de um futuro cor-de-rosa.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O amor...






O amor acorda na Primavera
caminha pelas ruas
apanha flores no jardim
aninha-se nos charcos
esconde-se na intimidade dos lençóis

o poeta canta o amor
a canção fala de amor
e outros confundem amor
com uma espada dilacerante de dor

o amor
por mais ornamentos que tenha
não é mais que
um impulso primordial de continuidade

da espécie

terça-feira, 11 de maio de 2010


um dia a cidade vai abaixo
e os becos
os bairros com história muita
darão lugar a imensas avenidas iluminadas
arejadas
universais

impessoais

segunda-feira, 10 de maio de 2010