sexta-feira, 16 de julho de 2010

Do outro lado Tróia...


Este “escrito” nasceu quase no lugar exacto de onde foi tirada esta foto. Como não tinha máquina no momento, pedi ao José Branco Carvalho que me facultasse uma das suas, e vai daí – amigos são assim – ele não esteve com meias medidas; pegou na máquina e foi lá fazer mais uma das suas belíssimas fotografias. Podem visitá-lo em http://olhares.aeiou.pt/josebranco ou http://josebrancocarvalho.blogspot.com/

do outro lado Tróia
vista daqui uma ilha
paraíso rasteiro de cimento plantado

duas gaivotas cortam o azul
outras tantas escrevem poemas de asa
o barco de Ulisses ao largo
ouve o canto da sereia na costa

o poeta procura a palavra certa nos ramos
insatisfeito mergulha os olhos na água
desenha manchas de nuvens

e deixa o poema inacabado

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Na beira da tua cama_______________


Na beira da tua cama
o amor é feito na quietude plena do silêncio

nos teus braços embalado esqueço-me das vertigens do almíscar

dentro de ti aconchego-me devagar

muito devagar - inteiro

sábado, 10 de julho de 2010

Todos nós já perdemos algo___________


Perdi-te no tempo húmido dos monólogos inacabados
rastejantes que espelhos suicidas devolveram
vagarosamente na loucura melancólica
das mulheres que se abriram nos espaços
vazios de versos sem rima
adormecidos na preguiça da escrita

perdi-te
antes da invenção do amor e da seda
na calada da paixão corroída pelo tempo
nos enigmas subterrâneos das casas dilatadas
pela precária segurança dos planetas

sei que vou morrer
antes que o teu fulgurante abraço me liberte
antes que me seja devolvida a palavra sumptuosa e radical
que trouxe comigo quando os cometas me lançaram na argila encarnada
das nove lunações precedentes

sei que te perdi
irremediavelmente
mas trago comigo ainda o fumo do incenso
a tua imagem guardada nas lágrimas terríveis quando te leio
no caudal ininterrupto celebrado
na brancura em carola de alguns poetas

mas antes
vou ainda sentir as válvulas púrpuras do pecado
o sabor a sal e a mel entre as mãos moldar
o movimento das estátuas de granito
cumprir a última rigidez do sexo e das sílabas
até à ejaculação fresca
                                   e derradeira             
                                                       nos canaviais

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Mais difícil do que escrever um "poema" é dar um nome ao poema!


um melro assobia na folhagem do vento

um grilo estridente grita que está ali

- é com as vozes do campo que reaprendo a falar
  tudo o que mais tarde na cidade esqueci

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Às vezes fugimos da cidade. Praia da Aberta Nova.



não sei...

se são animais perdidos na areia - os teus olhos
       ou o verde luminoso das marés

se o teu corpo esculpido por um deus ou um demónio
é o voo planado das gaivotas
       ou a vertigem sedutora dos abismos

mas sei...

que quero ir contigo até ao cabo do mundo

e afogar-me...

à beira dos coqueirais inclinados na praia
ou na escuridão sem fundo
       de velhos monstros marinhos

terça-feira, 6 de julho de 2010

Voltar às origens?


Penso que me tornei num urbano incorrigível, mas dou por mim a fotografar flores, insectos, aves, os animais que povoam a cidade… Talvez um dia mate a cidade que cresceu dentro de mim e volte às origens… Talvez vá morrer no campo, lá onde nasci e onde estamos mais próximo da terra e da verdade.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A rua é o meu quintal.

A rua é o meu quintal e faço dos plátanos o meu telhado. Hoje durmo na Avenida, amanhã talvez na Baixa, ou - quem sabe? -  veja o rio no Adamastor…  Alimento com o meu sangue os parasitas e baixo os olhos, senhores que baixam os olhos quando passam.  E a vós senhores que caminhais, limpos e perfumados, contribuintes do conforto, para as vossas prisões sociais, eu diria, se me ouvissem: sou livre! E um dia os vermes que devorarão o meu corpo serão os vermes que devorarão o vosso corpo... sem notarem diferença alguma.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

A ver o rio...

Hummm… hummmhuuuuumm…  Sempre gostei deste rio…

O quê é que se passa com céu?!…

Está menos azul… parece poeira…
A água… Também a água?... Não parece a mesma…
 E aquilo? Que anda ali a boiar?!!... Um preservativo?... Um tampão?!...

Credo!!! As porcarias que lançam ao rio!... Esta gente é porca, ou quê?!...
Seus filhos da puta! Cabrões de merda!