segunda-feira, 2 de maio de 2011

Angelo II

Gostaria que estas interrogações não me surgissem mais prementes que a falta de alimento, eu, que tantas vezes me esqueço de comer mais que a observação do mundo, a indignação do ser e a falta de justiça me criam um vazio no estômago que nada consegue preencher.

- Traga-me mais um café, por favor!

Gosto de café. Tomo tantos ao longo do dia… Às vezes fico com o coração aos saltos e falta-me o ar como se fosse morrer. É assustador. A aproximação da morte será sempre assustadora, próximo do pânico? Se calhar aqueles monges budistas têm as suas razões e é necessário toda uma vida para nos prepararmos para esse momento de libertação e serenidade.

- Obrigado!

Nada disto tem sentido. É absurda esta semi-ignorância a que estou confinado. Seria muito mais simples estar próximo dos outros animais e limitar-me a nascer, viver, alimentar-me, reproduzir-me e depois morrer. Agora, ter esta consciência das coisas sem conhecer a finalidade do ser… é angustiante. Uma angústia que se cola às células, se espalha por todo o fluido que circula no corpo e parece fazer um ninho num local obscuro do cérebro.
Sei que muitos parecem felizes. Serão mesmo? Lá vai ela outra vez; caminha como se cada passo fosse estudado para um show diário que consta de um leve mexer de ancas estreitas e pernas longas. O cabelo ondula como se fosse oiro líquido e o rosto tem a frescura da marcela numa manhã de orvalho. Queria rebolar o meu corpo no perfume campestre dessa Primavera. Impregnar-me com a seiva das folhas esmagadas na minha pele seca de tantos e áridos Verões. Chafurdar-lhe as mamas, abrir-lhe as coxas e gritar-lhe depois ao ouvido que a beleza das flores dura tanto como a vida de uma borboleta.

1 comentário:

  1. Entendo. Contudo, assusta-me a alma. Mas acredito que não seja senão um momento, um flash de desencanto... não mais que um momento.

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