segunda-feira, 2 de maio de 2011

Angelo III.

Muitas borboletas há por aqui. Mal abre o sol e vêm pousar, umas, outras dançam na calçada, abrem asas coloridas e voam ondulantes porque a vida é curta e as escamas que cobrem as asas logo estarão desbotada. O mundo está povoado de pequenos seres que dão cor à fachada triste e descuidada da cidade. Dantes pensava que a cidade era um monstro que nos devorava lentamente, mas agora percebo que a cidade é eternamente moribunda. Todos os dias quando acordamos sabemos que a cidade morreu mais um pouco. Alguém nasceu e nunca se lembrará desse momento porque a partir desse dia começará aos poucos a morrer.

- Gostaria mais que ela tivesse tirado o curso de direito, como o pai.

Advogados, arquitectos, doutores… O mundo está cheio de profissões que são títulos essenciais para o equilíbrio da sociedade e para que ela evolua como Darwin mandou e Deus aprovou. Comem-se numa guerra aberta para depuração da espécie de forma a que os mais válidos sobreponham os seus genes dominantes. Que faço eu aqui, senhores, sentado a ver o mundo e o tempo passar, enquanto senhoras citadinas com origem na Beira e no Alentejo falam da projecção futura dos seus cromossomas e criaturas sem alma e muitos números nos dedos passam de pasta e portátil falando de negócios?

2 comentários:

  1. Visionário... uma apreciação de quem, para além de ver em seu redor, vê mais além, do avesso, por dentro... onde já só existe o vazio...
    Por vezes também não sei que faço aqui!

    ResponderEliminar