domingo, 20 de fevereiro de 2011

Em letras pequenas...







não construí uma casa branca na falésia

quieto fiquei-me
com o olhar no mar rasteiro

em letras pequenas escrevo
desalinhos que a água leva

Tivesse eu voz...


tivesse eu voz e cantaria a tua
rouca imensa e sólida
na dura real solidez da partida
quando os teus olhos com lágrimas marejaram

as naus que se afastavam no horizonte.

condenado e sem regresso és
o meu pasmo pelo teu incógnito nome
nunca escrito nos coloridos manuais.

cantaria a tua mulher e os filhos que deixaste
a dor e aqueles que não fizeste.
cantaria a fome e o perdido esperma do teu corpo só
e abandonado no fundo do convés.

e cantaria as grilhetas e o cansaço do império
o frio da tua morte salgada
noiva sem ritual sepultada
no moribundo olhar escuro das marés.